Na Beira do Rio

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Enio Ferreira

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O domingo amanheceu chovendo

Como em todas as manhãs de domingo
Ela prepara o ramo de flores para levar ao túmulo
São rosas vermelhas e brancas que cultiva para os louvores
Daquele que jaz profundo, quem sabe isento de favores,
Muito longe em outro mundo

Mas o domingo amanheceu chovendo
E na difícil subida da ladeira
Em dias de chuva e vento
Dificilmente as rosas chegariam inteiras

E ela, na resignada cadeira, sentou esperando
Que parasse a chuva
E que a canícula do meio-dia endurecesse a lama
Então ela pudesse levar as flores e uma a uma
Enfeitar o túmulo, rezando para que durassem
Toda a semana

Mas o domingo prosseguiu entristecido pelo inverno
Taciturno e brando
E ela ainda permanece, ali, sentada
Vendo as rosas envelhecerem nos ramos
- e eu estou sentindo nos olhos dela a absoluta
Certeza que hoje não vai parar de chover
E então será o primeiro domingo do qual
Ela vai começar a me esquecer

*****

O que temos neste mundo
é o ar manso do horizonte incerto


O que temos neste mundo é o ar manso do horizonte incerto
A paisagem é de silencio, onde palavra nenhuma tem sentido
Promontórios martirizados de esperança irão ruindo
De forma funesta através do pranto o pássaro pia no ramo perto

Pungente mensagem do seu peito, mas o seu canto não mais me extasia
Perdeu a vida a estrutura e já aparece seu gesto, sua áurea, indefinida
Lamento não beber a música da mágoa que lhe roça os pés tão ressentida
É que encontra o seu piar a minha alma que adormece assim, vazia

Cascatas de vozes batem nas ribanceiras, passageiras e esquecidas
E o que fomos segue, como um grito, no rio ao oceano largo
Nessa água densa de luar que o céu procria ocupando o secular espaço
Aonde ali chegam como as folhas mortas da sua árvore desprendidas


E ficaremos todos assim
Tecendo como meninos
Esperando saber enfim

Por quem dobram os sinos

********


Caboclinho é o nomezinho de um pássaro

Caboclinho é o nomezinho de um pássaro,
Um pássaro pequenino, do mato, um passarinho bárbaro.

Cobre o seu corpo um leque de penas, como toga
Magistral, integral, bem pretas brilhantes, pretadinhas.
Do seu peito corre uma listra, de saudar rainhas,
Listra de penugem amarela, muito linda, amarelada.

Do alto da sua cabeça, na bordada cabecinha,
Um boné de penas, pequeninhas, cinza, arrepiadas.

Canta assim de assovio, um canto melodioso, superlativo,
De uma frase de dez notas, várias e várias vezes, repedidas.

O pequeno pássaro, o passarinho bárbaro, o caboclinho.
É o menor entre todos os passarinhos e também por isso
Ele é bárbaro, o bárbaro do canto, que só canta por amor
Do seu amor.
Multicolorida cor que enfeitam os campos, campinas de multicores flores, singelas flores campestre, que se levantam para o céu.

Um lumaréu de flores, coloridas, faz o ninho do caboclinho,
Onde no vapor das asas, elegantemente entra e sai, secretamente, o caboclinho e sua noiva, só fazendo coisas, o passarinho bárbaro.

Lá de longe, da igreja velha, lá no alto do morro, pelas ondas do vento, vem, por quem,
Que seja por ti, oh, caboclinho, oh, pássaro pequenino, o dobrar dos sinos.

**********
A palavra e o canto têm sempre o mesmo valor.
A palavra sou eu que falo e eu falo só por amor e o canto é você quem canta - caboclinho -, que só canta por sentir dor.

Também eu sofro, e sofro porque eu amo e, você, - oh caboclinho -, Também ama por isso sente essa dor.

Eu falo assim de quebranto,
Mas não canto porque não sei e você,
Caboclinho canta porque sabe o canto,
Mas eu bem sei que canta por desencanto.

Somos nós dois iguais destinos, você e eu, caboclinho. Viemos de muitas e muitas empreitas, por essas bandas de tantas e tantas matas.
Eu ainda trago vazias as minhas mãos, de você, passarinho, eu bem que sei, não leva nada nas asas.

E seguimos assim, sempre nós dois, mas, sozinhos,
Um é gente e o outro é passarinho,
Falando e cantando, andando e voando, falando coisas do amor
E cantando as coisas da dor.

Capelinha do monte bento
Na beira do vento
Vem por ti, passarinho,
O dobrar dos sinos.

Estou indo embora, caboclinho, terminei o aprendizado de toda literatura.
Nas notas do seu trinado libertei dos meus defeitos e fez ruir minhas paixões, foi grande o esforço, exaustivo até, mas desbastei a pedra bruta.

Agora vou ao eito concorrer, sim, à construção moral da humanidade.
A pedra está polida, caboclinho, é descansar o malho e estugar o passo.
Embrenhar a alma errante pelos flancos das florestas e das cidades

Onde florescem em mistérios tantos que nós dois desconhecemos,
Eu por ignorância e você, oh, passarinho, pelo seu medo infante
De transpor altíssimos promontórios que por certo defrontaremos.

Mostra a mim esse caminho, meu pequeno passarinho, que preciso trilhar para atingir pelo trabalho e pela observação o meu próprio domínio. Oh, Pássaro, a sua melopéia suaviza a aridez da estrada na qual eu devo passar.

Vamos, passarinho, num sopro cruzaremos o rio, eu a nado e você voando.
Não temos tempo para a tristeza nossa tarefa é ensinar e fazer nova historia
Ensinar os mandamentos e sobre a existência Divina e do Seu braço manso

Conduza a mensagem do seu mavioso piado, um trinado tão perfeito
Porque dela acolheremos a necessária inteligência e separar o bem do mal
Alertar a humanidade que sangra fecundada de paixões e preconceitos.

Temos agora no desejo a flor da mocidade e muito inverno para vencer
Leva sob seu boné de penas cinza a esperança e para o chão que nos espera
A partida deve ser agora, tenho o pressentimento que amanhã pode chover

Lá vou chegar com a luz do dia e encontrar a doçura nos lábios da amada
Que espera, passarinho, para recomeçar o seu trinado e sua missão realizar
Outros precisam saber dessa última grande mensagem que toda doença sara

É tempo de repressão enche seu peito de coragem passarinho da juventude
Leva-me sobre as tuas asas mais forte que as da águia o maior dos pássaros
De onde viemos nós, vem todo poder que rege o universo, Oh, Magnitude!

Verdade que não estamos alegres, no mar da historia ainda prossegue a luta
Tropel dos passos descompassados desnorteia a humanidade, corre escrava
Inútil arder desejo se não proceder à ação: precisa a colheita da semeadura

Vontade, amor e inteligência são as três estrelas que brilham do Oriente
Oh, passarinho mensageiro, não se elevará sozinho, fracas são suas asas
Sê forte com as três qualidades adubo essencial que faz germinar a semente
Aquele cujos olhos brilham, faz nascer de si e cintila no céu, novas estrelas
A Natureza tudo oferece a quem é sábio para pedir, nada precisa de redes
Quem muito ri, chora depois; para o frio nada melhor que a lã da ovelha

A lagarta na goiabeira escolhe sempre a folha mais tenra para triturar
Água boa é a do rio que corre alegre e docemente pelo seu leito de pedras
Aprenda da vida o que de bom lhe ensinam, para quando comer, desfrutar

Coloque antes na água só a pontinha do pé para saber dela sua temperatura
A sabedoria não conhece limites de tempo as horas existem só para o tédio
E não se deseja para o outro aquilo que para si não é coisa somente pura

No seio da noite adormece a alma, na delicia de sua existência terrena
Impregnada ao corpo que emana o mal contra o bem que emana de si
Porque não existe o corpo distinto de alma, qual obra divina mais plena

Da semente faça arvore, da arvore o fruto; na cama o merecido repousa
O mesmo deserto que o sol aquece é o mesmo que à noite a brisa é fria
Entre o céu e o inferno existe o tolo e o sábio: o tolo quer, o sábio doa

Por amor o bem só para si nada significa, é para os outros que se exalta
O menor de todos é sempre o que mais ama: entristece se o outro perde
Traz para si as dificuldades e sem perceber ergue um céu em sua volta

O amor é o predador do ser amado quando só existe contaminado de ciúme
Hábeis bailarinos em altura gigante confiam a sua vida nos braços do outro
Por muito que se aprende na vida, morrer com as mãos abertas é o costume.

É para reconhecer o milagre da vida num sapo ou, então, em frêmito algum
Há de alcançá-lo. - Pois, se em tudo ele se revela: no céu claríssimo, nas tempestades, nas flores. Então, assim, não o reconhecerá em lugar nenhum.

Sagrado é esse imenso céu que nos ilumina e nos dá a saúde, força e beleza
Saúde do corpo e da mente que é de onde vem a sabedoria para nos orientar no caminho da vida e refletir a Luz, como fazem, a noite, do céu, as estrelas

Força, sempre necessária para nos animar, sustentar e também para superar em todas as dificuldades e obstáculos que estiverem atravancando o nosso caminho. Seremos sempre esse milagre Divino de vida terrena a prosperar.

Beleza, a adornar nossas ações, caráter e nosso espírito dentro do Universo,
Templo da Divindade, a quem todos nós servimos por lealdade seguindo os preceitos de nossa construção moral e razão, nos preparando para o reverso.

Fé, esperança e a caridade, virtudes morais que devem ornar todo coração.
A Fé no grande poder Divino, de onde provem todas as coisas, sem a qual nada se poderá levar à termo, posto que, é da sabedoria que promove a ação

Esperança, a força do espírito, amparando, animando em suas dificuldades.
Incógnito futuro deixa em si a necessidade de fazer o presente ato pulsante
E que se faça todo bem que tanto se deseja e que para longe o mal se afaste

Caridade floresce no coração fazendo que nele abrigue tão lindo sentimento Toda humanidade foi criada para viver com amor, harmonia e fraternidade.
Espalhar luz e calor como o sol, a todos oferecer tanto amor como alimento

O céu procria os homens e no mundo terreno eles fabricam muitos defeitos
Mas é dever honrar a Providencia Divina combatendo a ambição e orgulho
A virtude das boas ações é tratar bem a todos sem distinção e preconceitos

Na vida como no rio o tempo segue como cursa no rio a sua água ao mar
E todo o tempo que na vida se esvai, deixa a experiência como um legado.
O rio extenso melhor serve, mas na vida a utilidade está no poder de amar.

Agora vai, caboclinho, pequenino passarinho, mas grande no seu trinado.
Já passou sua mensagem e se ninguém lhe escutou não se dê preocupação
Pois num mundo de muita ingratidão seu canto não poderia ser alcançado

Nossa viagem pára aqui, na areia fina da praia, à frente o largo horizonte.
Fim de estrada e não somos jovens, a caminhada foi longa e minou nossas forças, caboclinho, mas, também, o que somos além de simples passantes?